Por Dr. Martin Portner

Há pouco tempo os meios de comunicação divulgaram que o compositor, guitarrista, bluesman e mago da guitarra Eric Clapton tem neuropatia periférica. Ele mesmo o disse em uma entrevista à revista Classic Rock há poucas semanas. E salientou que não estava sendo fácil conviver com a doença – choques elétricos surgem do nada e correm pelos braços e pernas.

É de fato possível que Clapton venha a encerrar sua carreira antes do ele desejasse – embora suas composições aos 71 anos tenham sido aclamadas pela crítica como melhores do que nunca. Clapton utiliza, como muitos guitarristas, a técnica do bending, em que os dedos da mão esquerda pressionam firmemente a corda contra o braço do instrumento. A nota é vibrada com a corda deslizada para cima, forçando alcançar um semitom ou mesmo uma nota acima da original. Mas ninguém faz isso se estiver doente de neuropatia periférica.

Afinal, que doença é essa? O que acontece quando se é atacado pela neuropatia? Nessa doença, às vezes chamada de polineuropatia periférica, o s filetes nervosos que percorrem o corpo são afetados. Eles conectam nossas extremidades à medula espinhal. Da medula partem os neurônios que controlam nossos movimentos e para ela são enviadas as informações sensoriais da pele e tendões. Desta forma, se esta transmissão não é realizada, não conseguimos sentir os dedos das mãos ou dos pés, nem movimentá-los da maneira adequada. Em situações extremas, o problema conduz à paralisia, anestesia e incapacidade de se comunicar. Por que isso acontece?

Você já deve ter visto (ou consegue imaginar) umas dessas placas verdes cheias de filetes cinza que estão dentro de computadores – uma placa-mãe, por exemplo.

Os filetes cinza são os condutores de dados; a matéria verde serve para separá-los um a um. Se eles se tocam, o fluxo de informações cessa.

Os filetes nervosos que partem ou chegam à medula espinhal dentro da coluna vertebral também funcionam assim. São milhões de filetes e os mais especializados são revestidos da matéria verde – que no caso é branca e se chama mielina.

Feixes nervosos que não estão mais adequadamente insulados perdem informações. Para o cérebro, essa perda se materializa na forma de dormência, anestesia ou choques. Para os impulsos gerados no cérebro e que não alcançam os músculos, o resultado é a fraqueza ou a paralisia.

A neuropatia periférica é em geral um problema que decorre de outro. Ela pode ocorrer em diabéticos – mesmo aqueles que têm o açúcar sanguíneo quase controlado. Pode decorrer de excesso de ingestão de bebidas alcoólicas – e aqui entra o fator que causou a neuropatia de Clapton, conforme ele mesmo explica. “Foram anos de noitadas de álcool e cocaína”, enfatiza.

Transtornos da glândula tireoide, a falta da ingestão de alguns tipos de vitaminas e certos pesticidas usados em lavouras completa o quadro de agentes causadores de neuropatia periférica.

Muitas das neuropatias periféricas são causadas pela perda da insolação de mielina, mas outras decorrem do efeito direto sobre as células nervosas periféricas. Em ambos os casos, o efeito final é a neuropatia.

Cerca de 2% da população é afetada pela neuropatia periférica, porém em adultos com mais de 55 anos ela pode atingir 8%. Isso significa um em cada dez brasileiros em idade madura.

Ela em geral inicia pela sensação de formigamento nos pés; depois se alastra, podendo levar anos para se desenvolver.

A cura é complexa, pois envolve primeiro identificar ao agente causador. Mas mesmo que esse não seja identificado, há medicamentos disponíveis para eliminar o desconforto. E a fisioterapia recupera os movimentos.

Mas o upbend da corda na guitarra elétrica é outro departamento. Ele exige fino tato, aprendizado irretocável, treinos exaustivos, além de força e vigor nos dedos e nervos periféricos intactos.

A neuropatia periférica tira esses predicados. O upbend da nota si bemol para o dó fica no meio do caminho. O bluesman desafina. É de dar dó.

Impensável ouvir Somebody´s Knocking, do último e excelente álbum I Still Do, de Eric Clapton, sem perceber o sonoro e incrível upbend de guitarra na abertura da música.

*Dr. Martin Portner é Neurologista e Mestre em Neurociência pela Universidade de Oxford. Há mais de 30 anos divide suas habilidades entre atendimentos clínicos e palestras, treinamentos e workshops sobre sabedoria, criatividade e mindfulness.